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O ano era 2003. Aquele garoto da turma ao lado, que pegava o mesmo ônibus que eu para voltar para casa, acabou virando meu melhor amigo.
Havia sempre tanto para conversar que o ônibus que antes parecia terrivelmente lento e demorado agora ia rápido demais.
Nós dois gostávamos de ler, mas seu gosto literário era mais sofisticado que o meu. Você até escrevia poemas. Por sua causa, comecei a visitar outras prateleiras da biblioteca municipal.
Você também entendia muito mais de música do que eu. Você começou a me emprestar CDs de bandas que eu não conhecia. Lembro de Coldplay e Strokes, mas tiveram vários outros também. Os álbuns que você me emprestou influenciaram meu gosto musical para sempre. Eram mesmo os tais “anos de formação” e você teve um grande impacto em mim.
Depois veio o ensino médio. Fomos para a mesma escola mas já não nos falávamos tanto, cada um foi para um grupinho. Bizarramente (para mim) você acabou se enturmando com os populares da escola. No último ano retomamos nosso contato ao acabar na mesma sala de aula. Sentávamos perto, trocávamos bilhetinhos com piadas internas. No show de talentos, junto com mais dois colegas, apresentamos “In my life”, dos Beatles.
There are places I’ll remember
All my life, though some have changed
Some forever, not for better
Some have gone and some remain
A gente já sabia que com o fim do ensino médio cada um seguiria seu caminho. Você escreveu uma carta para eu abrir só dez anos depois, mas confesso que eu abri ela logo na sequência. Lembro tão bem dela… Você não escreveu muito, mas disse que sabia que eu conquistaria o mundo. Suas palavras foram muito importantes para mim, porque eu sempre te admirei muito. E você colocou no envelope uma fitinha que eu tinha te dado em 2003. Isso mostrava que nossa amizade também tinha sido importante para você, mesmo que a gente tenha se afastado.
E aí se passaram dez, vinte anos. Na pandemia te achei no Instagram e te adicionei. Trocamos algumas poucas mensagens para nos atualizarmos do que tinha acontecido nesse tempo. Você me contou que tinha virado chef mas que acabou desistindo de trabalhar em cozinha porque era uma rotina muito pesada. Contei que estudei História e estava desempregada. E foi isso. Via suas publicações, te acompanhava de longe mas nunca mais conversamos.
Acordei e vi a notícia do seu falecimento. Fiquei mexida e não sabia muito bem o que fazer, então escrevi esse texto. Não sei se conquistei o mundo, Beto, mas ele certamente se ampliou por eu ter te conhecido. Obrigada por ter sido meu amigo.




Não esperava esse final, que triste (mas belo texto).
Que bonita lembrança e homenagem! Sinto muito que ele partiu :(